Vamos começar pela versão de 1981, que, na minha opinião, é muito superior à de 2013. O filme do Chediak consegue captar melhor a malícia, o tom ácido e as nuances da escrita de Nelson Rodrigues. As falas são mais fiéis ao texto original, e as interpretações, embora um pouco teatrais, dão aquela sensação de artificialidade que combina demais com o clima de "conversa de boteco" que o autor tanto gostava.
Além disso, o filme de 81 é mais explícito, o que aumenta o impacto das cenas. E isso é puro Nelson Rodrigues: ele adorava chocar a sociedade. As conversas sociais, cheias de pensamentos machistas, homofóbicos e racistas, são escancaradas, mostrando a degradação da burguesia e a crença no poder do dinheiro para comprar tudo. A violência sexual, por exemplo, é retratada de forma crua, refletindo a mentalidade da época (e que, infelizmente, ainda persiste em muitos casos). Uma das falas mais marcantes é a do Dr. Werneck, pai da Maria Cecília, que diz:
"Hoje, ninguém mais liga pra cabaço. E outra. Tem o médico; a mulher sai mais virgem do que entrou. É o Pitanguy das xoxotas."
Essa fala, dita quase como uma piada, mostra como a violência contra a mulher era banalizada. E é aí que o filme acerta: ele não tem medo de ser incômodo.
Claro, não dá pra falar do cinema brasileiro dos anos 80 sem mencionar a influência das pornochanchadas dos anos 70. A erotização era um traço marcante, mas, ao contrário das comédias picantes da década anterior, os filmes dos anos 80 traziam críticas sociais mais profundas. A nudez e o sexo estavam lá, mas como pano de fundo, não como foco principal. E isso revela outra faceta da hipocrisia brasileira: enquanto a sociedade criticava a "depravação" dos filmes, muitos dos críticos eram justamente os alvos das histórias, que mostravam o que eles faziam longe das câmeras.
Agora, vamos falar da versão de 2013. Confesso que esperava muito mais. Afinal, contamos com grandes atores na atualidade e uma tecnologia muito mais avançada do que nos anos 80. Mas, infelizmente, o filme não entregou.
O primeiro erro foi tentar atualizar o cenário sem atualizar a história. O resultado foi uma mistura estranha, com elementos dos anos 70/80 num contexto supostamente moderno. Por exemplo, a ideia de uma família rica forçando a filha a se casar porque ela perdeu a virgindade (mesmo que por uma violência sexual) já não faz sentido nos dias de hoje. Em famílias conservadoras, talvez ainda exista algo parecido, mas não é mais a realidade do Brasil.
Outro problema foi a tentativa de justificar a famosa frase do Otto: "O mineiro só é solidário no câncer". A direção decidiu explicar essa frase ao longo do filme e, talvez com medo de ofender os mineiros, mudou para "O brasileiro só é solidário no câncer". Até entendo a preocupação, mas a justificativa acabou prejudicando o ritmo da história. E, sinceramente, acho que Nelson Rodrigues (ou Otto Lara Resende, a quem a frase é atribuída) estava falando da humanidade como um todo, não só dos mineiros ou dos brasileiros.
A versão de 2013 também pecou ao suavizar as cenas de nudez e violência sexual. Entendo a preocupação em tornar o filme mais palatável, mas isso acabou tirando o impacto que Nelson Rodrigues tanto gostava de provocar. As cenas de violência, por exemplo, foram tão amenizadas que perderam a força dramática. E isso é um problema, porque a crítica à hipocrisia e à violência sexual é um dos pilares da obra.
Outro ponto que não funcionou foi a tentativa de misturar o contexto dos anos 80 com elementos atuais. A cena da violência sofrida pelas irmãs de Ritinha, por exemplo, no filme de 81, era clara e impactante: uma família rica e moralmente decadente, com festas seletas e convidados da mais alta sociedade. Já na versão de 2013, a cena é caótica e confusa, sem deixar claro o nível social dos participantes. O caos acaba tirando o foco do crime em si.
No fim das contas, a versão de 1981 é bem mais fiel ao espírito de Nelson Rodrigues. As atuações, embora um pouco teatrais, são boas, e as cenas de nudez, apesar de presentes, são bem trabalhadas. Claro, poderiam ser suavizadas sem prejuízo para o filme, mas a sensualidade era uma característica marcante do cinema brasileiro da época. Já as cenas de violência, embora chocantes, são discretas e bem feitas, ainda que corram o risco de serem vistas com um certo tom de sensualidade, o que é um problema.
Enfim, a versão de 1981 é, sem dúvida, a melhor das duas. A de 2013 até tenta, mas acaba perdendo a essência da obra de Nelson Rodrigues. Se você quer entender o que o autor queria dizer, vá de 81. Mas, se for assistir, esteja preparado: é um filme que incomoda, e é pra incomodar mesmo.