terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Memória Que Me Contam (2013)

    O filme "Memória Que Me Contam" trata da nebulosa história brasileira durante a ditadura militar, mas não é exatamente um documentário ou um filme histórico. É uma ficção que se baseia em situações reais e experiências de pessoas que viveram aquele período. Ou seja, os personagens são ficcionais, mas inspirados em diversas personalidades dos revolucionários da época. E o filme traz memórias reais, porque é baseado nas experiências da própria diretora, Lucia Murat.

    Não considero o filme ruim. Ele tem uma bela fotografia, com uma iluminação bem bonita, e, mesmo sendo em sua maioria ambientado dentro de um hospital, as cenas externas são muito bem feitas e bem escolhidas. Mas, mesmo assim, não é um filme fácil de assistir.

    Primeiro, o espectador precisa lidar com uma história fragmentada, que realmente dá a impressão de lembranças desconexas, como se fossem memórias soltas. Outra coisa é a sensação de caos. Tudo parece meio bagunçado, como se fosse realmente a memória desordenada de alguém. Por isso, não é um filme para quem não tem muito conhecimento sobre a história do Brasil, especialmente o golpe militar. As coisas não são explicadas como em um documentário ou filme histórico. É preciso entender um pouco do contexto para não se perder.

    Como quase todos os filmes brasileiros, esse também exige paciência, porque é bem lento. Também exige atenção, para não se perder no meio da história. Não é o tipo de filme para assistir em grupo, a menos que seja com pessoas que já saibam o que esperar e que tenham interesse no tema.

    Um exemplo do que, para mim, quebra o ritmo dos filmes brasileiros é a cena inicial, com o mar quebrando na praia e logo depois o personagem dirigindo em uma chuva torrencial; nessa cena inicial, a primeira fala da cena surge somente depois de um minuto e meio. É uma cena longa, e esse minuto e meio poderia ter sido muito mais curto, sem prejudicar o impacto que o filme quer passar. Pode parecer pouco, mas para um filme, um minuto e meio é bastante tempo.

    É claro que a cena inicial tem como objetivo transmitir a profundidade do filme e explorar as reflexões sobre as memórias dos personagens e seus traumas. Essas intervalos demasiadamente longos nas cenas é uma característica que me incomoda nos filmes brasileiros. Se a cena fosse mais compacta, ela ainda passaria a mesma mensagem e tornaria o filme mais dinâmico.

    O filme usa um recurso interessante, que é intercalar personagens do passado como figuras "presentes" no ambiente. Embora seja um recurso criativo, ele acaba intensificando a sensação de caos. Normalmente, estamos acostumados a ver cortes ou efeitos que deixam claro quando o filme está retratando o passado.

    A maior impressão que tive durante o filme foi a de estarmos entrando na vida de alguém conhecido recentemente. Nós não sabemos quem são outras pessoas que o rodeiam, seus parentes, seus amigos. Tudo nos parece muito fragmentado. É comum que nos filmes, os personagens sejam apresentados aos poucos, junto com suas histórias e conexões. Entretanto, no caso deste filme, onde a dinâmica muito lenta, ficou difícil me conectar com os personagens e entender quem eles eram.

    Parece que a intenção do filme é justamente destacar as histórias que essas memórias representam, mais do que os próprios personagens. Afinal, dá a impressão de que as memórias são, na verdade, o personagem principal, já que os demais personagens não representam pessoas específicas da vida real.

    No geral, o filme não traz grandes novidades históricas para quem já conhece bem a história do golpe militar de 64. Como entretenimento, também não funciona muito bem, porque não tem aquele poder de manter o espectador interessado por mais de uma hora e meia. Para quem já conhece a história dos principais revolucionários da época, as memórias não trazem nada de novo ou relevante.

    O filme explora as condições psicológicas dos personagens: os traumas que eles carregam e as dores das quais muitos não se recuperaram, dada a violência sofrida nas mãos do regime militar.

    Uma parte interessante do filme é quando ele levanta a discussão sobre os erros e exageros cometidos também por alguns grupos dos revolucionários. É algo que, embora compreensível, não justifica a violência. Como escreveu o poeta popular das ruas, Gentileza: Gentileza gera gentileza. Isso nos leva a ideia de que "violência gera violência",  uma perspectiva que faz sentido, especialmente ao compararmos com a atual abordagem violenta de combate à criminalidade no Brasil.

    Talvez minha decepção tenha vindo da alta expectativa que eu tinha para o filme. Não é o tipo de história com começo, meio e fim, mas mais como a vida cotidiana, onde nada define o início ou o fim, exceto o raiar do dia e o anoitecer. O final de um tempo na história, e não o final de uma história em si.

    As cenas do filme não criam aquele suspense que nos faz querer ver o que vem a seguir. Se eu parasse de assistir a qualquer momento, não teria a sensação de estar perdendo algo importante, porque a cena não nos gera a expectativa para saber o que vai acontecer depois. Em alguns momentos, até pensei em pular algumas cenas, e confesso, cheguei a aumentar a velocidade de exibição para 1,5x.

    A segunda parte do filme as coisas melhoram um pouco, os diálogos se tornam mais interessantes, além de apresentar o quanto os grupos revolucionários tinham ideias diferentes, ainda que compartilhassem da mesma ideologia e o mesmo desejo de liberdade.

    Enfim, ainda não me sinto preparado para esse tipo de filme. Ele se tornou difícil de assistir e cansativo, apesar do meu interesse em entender mais sobre o período da ditadura.