quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

A Metade de Nós (2024)



    O filme começa de forma crua e intensa, abordando a história de um casal em luto: Carlos (Cacá Amaral) e Francisca (Denise Weinberg), que perderam o filho para o suicídio. Devastada, a mãe confronta o médico, Sérgio (Henrique Schafer), responsabilizando-o pelo ato do filho. O que se desenrola a seguir é o desmoronamento de duas vidas já marcadas pelo tempo, agora esmagadas pela tragédia. Como compreender o desespero que leva alguém a tirar a própria vida? Teria sido possível evitar? São perguntas que ecoam sem resposta definitiva.

    As cenas iniciais são profundamente marcantes e nos levam a refletir: como um pai e uma mãe se sentem após perderem um filho de maneira tão dolorosa, por um ato cometido pelo próprio? O que se diz, o que se pensa, o que se faz diante de um luto tão avassalador, antes mesmo de se conseguir, minimamente, superar a dor e a tristeza?

    A cena em que os pais assistem aos vídeos do filho ainda criança é profundamente tocante, especialmente para aqueles que, como nós, já acumularam anos de vida e acompanharam o crescimento de tantos pequeninos em sua família. Os carregamos no colo, celebramos os primeiros passos, as primeiras palavras, as primeiras gracinhas. E então, diante dessa cena, surge um pensamento inquietante: será que não estamos à beira de testemunhar algo tão terrível próximo a nós? Seria possível percebermos os sinais a tempo, antes da fatalidade?

    Como sempre digo, um dos males dos filmes brasileiros é a lentidão que certas cenas criam. Mas, neste caso, os momentos de silêncio falam tão alto quanto os próprios diálogos. O movimento contido das pessoas dentro da casa já é, por si só, uma forma de comunicação. As tentativas de seguir em frente, de manter as ações cotidianas, revelam uma solidão profunda e uma dor invisível que paira sobre cada um daqueles pais.

    E então, somos tomados pela angústia e agonia daquela mãe que acorda sobressaltada durante a noite. O pai, embora compartilhe da mesma dor, tenta demonstrar menos sensibilidade, menos emotividade, enquanto a mãe não consegue disfarçar o sofrimento que a consome. Mas até onde é possível manter a força diante de uma perda tão devastadora, sem desmoronar em tristeza? E quando menos se espera, a fragilidade se revela em toda a sua intensidade.

    Não é um filme fácil de assistir. O tema é duro, e nos faz acompanhar o luto do casal em toda a sua dor—a sensação de um sofrimento sem fim. Como espectadores, vivenciamos essa angústia como se fosse nossa, sentindo cada instante dessas duas vidas que tentam se reequilibrar. A cada diálogo, transparece a impressão de que a vida perdeu o sentido. Como seguir em frente diante de uma perda tão avassaladora?

    Cada família, cada casal e cada indivíduo reage de forma diferente. Alguns encontram apoio mútuo, outros acabam se destruindo—como acontece com os protagonistas desta história.

    A cena do elevador entre Carlos e Hugo (Kelner Macêdo) carrega um constrangimento silencioso, mas extremamente significativo. Até esse momento, não sabemos muito sobre o filho de Carlos, mas a proximidade etária entre ele e Hugo sugere uma conexão implícita. Será que eles se parecem? Será que Hugo conhece a história do vizinho? O encontro, por mais breve que seja, evidencia a dor invisível que Carlos carrega e nos faz refletir sobre como o luto pode se manifestar nos detalhes mais banais do cotidiano.

    Francisca nos faz refletir sobre os limites do desespero de uma mãe diante da perda. Até onde ela pode ir em sua busca por respostas? Sua obsessão em acompanhar a vida do terapeuta do filho parece ser uma tentativa de encontrar uma lógica no que aconteceu, como se entender cada detalhe da vida desse profissional pudesse revelar aquilo que ela não conseguiu enxergar a tempo.

    Enquanto isso, Carlos busca no jovem vizinho uma forma de preencher o vazio deixado pelo filho. É como se cada um dos pais escolhesse um caminho próprio para lidar com a ausência — ela, investigando e revivendo o passado; ele, tentando projetar um novo vínculo no presente. Ambos, no fundo, presos à mesma dor, mas expressando-a de formas distintas.

    À medida que a trama avança, começamos a conhecer melhor Hugo e, por consequência, também compreendemos um pouco mais sobre Carlos. O relacionamento entre os dois vai se tornando mais claro, revelando não apenas a busca de Carlos por algum tipo de substituição afetiva.

    Paralelamente, Francisca continua sua vigília sobre o terapeuta de seu filho. Suas motivações se tornam mais evidentes: não se trata apenas de curiosidade ou culpa, mas de uma necessidade quase desesperada de encontrar uma resposta definitiva para o que aconteceu.

    Como eu disse anteriormente, não é um filme fácil de assistir? Não, não é um filme de entretenimento. É um filme que nos convida a refletir sobre as questões emocionais e psíquicas que envolvem o ser humano em toda a sua complexidade.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Missão Porto Seguro (2025)


    É difícil definir qual é a proposta do filme. Era para ser um filme de ação com toques de comédia? Ou uma comédia com elementos de ação? No fim, não consegue ser nem uma coisa nem outra. A ação não empolga, a comédia não funciona. O estereótipo da patricinha influencer ainda adiciona uma boa dose de vergonha alheia.

    A investigadora Denise (Giovanna Lancellotti), que quase se incendeia sem perceber, flerta com o ridículo. A trama do pai linha-dura que exige perfeição dos filhos e do herdeiro que precisa provar seu valor no trabalho já soa desgastada, repetitiva. Para não dizer que tudo é ruim, as tomadas das cidades são um acerto — bem escolhidas e visualmente bonitas, com destaque para as imagens de Porto Seguro.

    E o diálogo da carteira de identidade no bar? Parece existir apenas para dizer ao espectador: "Olha, ela tem cara de menor de idade." Mas não é bem assim. Ok, ela é jovem, mas daí a se passar por uma adolescente? É preciso um esforço enorme para acreditar. E Denise, ao tentar interpretar uma adolescente, fica mais parecida com uma completa debiloide do que com uma jovem. Aliás, quase ninguém do elenco "adolescente" realmente convence no papel.

    Bom, espero que os adolescentes de hoje não se pareçam com os deste filme — caso contrário, só posso lamentar por eles. E aquele esforço desesperado da Denise para se enturmar? Forçado ao extremo. A vibe adolescente que o filme tenta vender é simplesmente insuportável. Por pouco não desisti de assistir por causa disso.

    Gosto da Giovanna, gosto muito do Falabella. E embora não conheça tão bem o Babu Santana, os poucos trabalhos que vi dele me agradaram bastante. Mas nem a presença deles conseguiu salvar este filme para mim. Simplesmente achei muito chato. E isso é tudo que tenho sobre este filme.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

A Noite das Taras (1980)

    Com um título como A Noite das Taras, a expectativa inevitável é de um filme erótico ou pornográfico. Mas ele falha em ser qualquer um dos dois. Pouco explícito para ser classificado como pornô, direto demais para ser considerado erótico. Na verdade, trata-se de um filme mosaico, composto por três histórias que giram em torno de marinheiros seduzidos pelo canto da sereia – só que bem longe do mar.

    O ritmo é lento, o que não chega a ser uma surpresa para o cinema brasileiro. Alguns filmes conseguem justificar essa lentidão ao construir atmosferas envolventes – seja retratando a aridez do sertão ou explorando a beleza de um cenário cativante. Mas esse não é o caso aqui. As cenas são arrastadas sem que se extraiam delas qualquer imersão ou significado maior.

Primeira história: A Carta de Érico

    A primeira impressão é de atuações artificiais, teatrais demais para as telas. O cenário urbano já nos insere no caos de uma grande cidade dos anos 80, mas sem grande envolvimento narrativo.

    Cibele (Patrícia Scalvi) está trancada em seu apartamento, contemplando várias formas de suicídio: veneno, arma, navalha. Mas hesita. Quando parece finalmente decidida a usar a navalha – o método mais doloroso entre os que cogitou –, batidas na porta interrompem seu plano. Um mensageiro chega com uma carta. Podemos dizer que foi "salva por um bilau".

    O mensageiro é uma figura peculiar. Invade o espaço de Cibele com uma naturalidade absurda, movendo-se pelo apartamento sem pedir licença. Ele tem um jeito engraçado, embora seja descaradamente folgado. Cibele, por sua vez, não se interessa nem pela carta nem pelo portador. Segue para o quarto, ainda determinada a pôr fim à própria vida.

    A essa altura, uma pergunta paira no ar: quem é Érico, o remetente da mensagem?

    Esta história, em particular, até consegue construir uma boa dose de expectativa. A iminência do suicídio mantém a tensão, enquanto os diálogos, rememorados, entre o mensageiro e o enigmático Érico guiam a narrativa. Mas o que incomoda é a lentidão frustrante da protagonista: mesmo sentada ao lado do mensageiro, ainda hesita em abrir a carta. Mulher, abre logo essa correspondência!

    O próprio mensageiro, num lampejo de brilhantismo, sugere: "Por que não ler a carta e ver se ela esclarece algo?"
    Oh, great idea. E então, enfim, a surpresa. Preciso admitir que fui pego de leve desprevenido.

Segunda história: Peixe Fora D'água

    Simplesmente horrível. Atuação ruim, diálogos ainda piores. Até as cenas de sexo – que deveriam ser o carro-chefe do filme – são artificiais e desinteressantes. No fim, temos quase meia hora de tempo desperdiçado.

Terceira história: Julio e o Paraíso

    Cenário noturno, cidade agitada. Julio, generoso, leva cinco mulheres esfomeadas ao Eduardo’s Rodízio. Os diálogos são um pouco menos sofríveis, mas ainda distantes de qualquer envolvimento real. Pelo menos, essa última história entrega um erotismo mais assumido – ainda que sem grande beleza ou impacto.

Conclusão

    Filme difícil de assistir. Uma mistura indigesta de Ilha da Fantasia, Além da Imaginação e Nelson Rodrigues – só que de terceira categoria. Nenhuma das histórias se sustenta. Como narrativa erótica, falha. Como pornô, também não diz a que veio. No fim das contas, A Noite das Taras entrega menos do que promete e não tem nada que realmente valha a pena.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Vítimas do Dia (2025)

    Desde os primeiros minutos de Vítimas do Dia, senti-me claustrofóbico. Era como se eu estivesse assistindo ao filme de dentro de uma caixa fechada. A tensão cresce sem trégua e, quando parece que chegamos ao limite – que tudo o que resta é aguardar o final da guerra entre milicianos e traficantes –, o filme encontra novas formas de nos sufocar. O desespero não é apenas o dos que estão presos no mercado, mas também daqueles que vivem encarcerados dentro de suas próprias casas, como Daiane e sua irmã.


    O filme recorta com precisão a violência cotidiana que assombra parte da sociedade brasileira. Em uma metrópole, uma simples tarefa do dia a dia pode se transformar em uma aventura pelo trânsito da grande cidade e terminar em uma tragédia como uma guerra entre milicianos e traficantes. Nada é seguro, nada é previsível. E o mais perturbador é que essa sensação de risco não é uma paranoia, mas uma quase certeza. A qualquer momento, tudo pode mudar.

    A fotografia traduz essa dureza. Tudo no filme reforça a aspereza da realidade que retrata. Não se trata apenas da violência física – há também o peso das vidas individuais dos personagens, que já enfrentam batalhas pessoais antes mesmo de ficarem presas no mercado. Uma gravidez inesperada, uma aposentadoria compulsória, a hostilidade de um novo ambiente de trabalho – problemas que, isoladamente, já são difíceis, mas que, dentro do contexto do filme, ganham um peso ainda maior.

    E então, como se já não bastasse, tudo fica ainda pior. Um tiroteio os obriga a se trancarem dentro do mercado por horas. Horas de medo, tensão e incerteza. As atuações são intensas, cada olhar e gesto carregado de desespero. Mesmo fora do mercado, a sensação de perigo persiste. Na casa de Daiane e Elder, onde se espera um mínimo de refúgio, a inquietação só aumenta. A demora do marido, a falta de notícias, a falta de contato por telefone, a queda de energia – cada detalhe amplia o pânico.

    Apesar de o filme tratar de violência armada, senti que a cena da discussão sobre armas foi um ponto destoante. Minha posição pessoal é contrária ao armamento, e, embora o diálogo expresse exatamente o que penso, a forma como ele foi inserido soa forçada, quase didática demais. Não consigo imaginar um grupo de pessoas, em meio a um tiroteio, parando para debater o tema daquela maneira.

    Não é um bom filme para mim. Não por falta de qualidade – Vítimas do Dia é uma obra muito bem executada, com atuações marcantes e uma construção impecável de tensão –, mas porque me causa um desconforto profundo. Ele é tenso, angustiante, desesperador. Senti o desespero de Daiane como se fosse meu. E talvez esse seja o verdadeiro impacto do filme: ele não é um retrato distante de uma realidade alheia. Ele fala sobre um mundo que, embora pareça distante para alguns, pode estar a poucos quilômetros de distância. Poderia ser eu naquele lugar. Poderia ser alguém próximo a mim.

    Ainda assim, apesar de toda a brutalidade, o filme se encerra com um respiro – um vislumbre de esperança, de nascimento e renascimento.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

O Que é Isso Companheiro? (1997)

    O filme é um recorte da história brasileira durante a ditadura militar, iniciada em 1964. 

    


 
A abertura nos apresenta imagens das décadas de 60 e 70, sugerindo uma vida aparentemente normal: pessoas se divertindo, festejando no carnaval, como se a alegria fosse a tônica da época. No entanto, a cena inicial desmonta essa ilusão. Uma gigantesca passeata exige o fim da ditadura, mas é violentamente reprimida pela polícia. Essa cena deixa claro que a liberdade era uma miragem. Em governos democráticos, as pessoas têm o direito de se manifestar, mesmo que seja contra o próprio governo. Na ditadura, esse direito era negado, e a violência era a resposta a qualquer dissidência.


    Hoje, algumas vozes saudosistas exaltam a ditadura militar, afirmando que era uma época de maior segurança, respeito e menos corrupção. 


    Essas narrativas, porém, ignoram que a violência daquela época era menos visível, não menos real. As informações eram controladas, e apenas casos extremos chegavam aos jornais de alcance nacional. Hoje, com a internet, a violência é exposta em tempo real, em escala global. Além disso, havia a violência oculta nos porões da ditadura, onde torturavam não apenas os opositores declarados, mas qualquer um sob suspeita. 


    Quanto ao "respeito", trata-se de uma nostalgia geracional: toda geração tende a ver a seguinte como "degenerada". 


    E a corrupção? Arquivos revelam que ela existia, mas era encoberta pela falta de transparência.


    O filme também contrasta a guerra interna no Brasil com os tempos áureos dos EUA, simbolizados pela vitória na corrida espacial com a chegada do homem à Lua. Esse contraste é crucial, pois documentos revelados após o fim da Guerra Fria mostram o envolvimento dos EUA no golpe de 64. Essa prática de patrocinar golpes em outras nações não era novidade — os EUA justificavam suas ações como uma luta contra o "comunismo", o inimigo criado para legitimar intervenções. Mesmo após a Guerra Fria, essa política de guerras indiretas e apoio a golpes persiste, independentemente do regime ou ideologia do país-alvo.


    Os militares alegavam que seu objetivo era manter a ordem e promover o crescimento do país. Antes, eu duvidava que uma ditadura pudesse alcançar isso. Hoje, reconheço que é teoricamente possível, mas apenas se os líderes fossem dotados de um rigor moral excepcional. O problema é que o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Uma ditadura "benevolente" seria uma contradição nos termos.


    O filme retrata a formação de um grupo de resistência que luta contra o regime capitalista em prol de uma versão comunista de governo. No entanto, é importante lembrar que a oposição à ditadura era diversa: havia desde comunistas até quem apenas desejava o fim do autoritarismo. 


    O filme foca em um grupo específico, cujo objetivo era denunciar as atrocidades do regime, especialmente após o Ato Institucional nº 5, que calou a imprensa e intensificou a repressão. A solução? Uma ação ousada: sequestrar o embaixador dos EUA, uma potência global cujo envolvimento no golpe já era suspeito. O sequestro não visava apenas a libertação de presos políticos, mas expor ao mundo a face brutal da ditadura.


    A cena do assalto a um banco, por exemplo, não era apenas uma forma de financiar o grupo, mas também de transmitir suas razões à população. Apesar dos riscos, o grupo agia com um propósito maior, como fica claro no diálogo de Luiz Fernando Guimarães. 


    O filme também mostra a organização dos revolucionários, sua intelectualidade e as táticas usadas para escapar da repressão. Eram estudantes, trabalhadores, pessoas comuns que se sentiam oprimidas — não "bandidos", como o regime tentava retratá-los.


    O sequestro do embaixador foi um marco. Apesar dos erros cometidos pelo grupo, a ação foi bem-sucedida, e o embaixador sequestrado testemunhou que foi tratado com dignidade. Isso desmonta a narrativa militar de que os revolucionários eram meros marginais. No entanto, o preço foi alto: muitos foram capturados, torturados ou desapareceram. Apesar disso, a pressão popular cresceu, e os militares só devolveram o poder aos civis quando o país já estava em crise, com dívidas astronômicas e corrupção generalizada.


    Hoje, há quem negue os males da ditadura. As classes mais altas, que não sofriam diretamente com a repressão, tendem a minimizar o período. Já a classe trabalhadora, historicamente explorada, muitas vezes não via diferença entre a ditadura e outros regimes. 


    Essa falta de unidade é retratada no filme: enquanto um taxista expressa orgulho pela ação dos sequestradores, um comerciante os denuncia por desconfiança. Essa divisão reflete um problema maior: a alienação política do brasileiro.


    O ditado "Futebol, religião e política não se discute" não era apenas um conselho para evitar conflitos; era uma ferramenta de controle. Ao afastar a população das discussões políticas, o regime garantiu que o povo permanecesse apático e vulnerável ao autoritarismo. Hoje, colhemos os frutos dessa alienação: uma população que odeia a política sem entendê-la, presa em uma polarização superficial.


    O filme também mostra como o regime soube usar a vitória na Copa de 70 para elevar o moral da população e desviar a atenção de suas ações. Atualmente, discutir política no Brasil é difícil, pois muitas pessoas repetem discursos prontos, sem desenvolver pensamento crítico.


    Por fim, o filme retrata a complexidade dos grupos revolucionários. A união entre o MR8 e a ALN mostra que, apesar de compartilharem a mesma luta, havia divergências internas. Enquanto alguns buscavam apenas denunciar o regime, outros visavam a derrubada completa do governo. Essa diversidade de pensamentos é crucial para entender a resistência à ditadura.


    Em suma, o filme é uma experiência histórica valiosa, bem produzida e fiel aos relatos da época. Apesar de alguns diálogos forçados, ele consegue transmitir a tensão e a diversidade de ideias que marcaram a resistência à ditadura. E, acima de tudo, nos lembra que a luta pela liberdade e pela justiça é sempre complexa, cheia de nuances e sacrifícios.


    A história da ditadura militar no Brasil é uma história contada principalmente pelos que resistiram. Os opressores, ao destruírem documentos e ocultarem provas, tentaram apagar não apenas os vestígios de seus crimes, mas também a própria possibilidade de uma narrativa alternativa. Essa prática não é exclusiva do Brasil — regimes autoritários em todo o mundo usaram táticas semelhantes para silenciar o passado e controlar o futuro. No entanto, a verdade tem uma maneira peculiar de ressurgir, mesmo que em fragmentos.


    Os poucos documentos que sobreviveram, escondidos nos porões de casas de militares ou de agentes do regime, são como janelas para um passado que muitos prefeririam manter fechado. Eles confirmam relatos de tortura, desaparecimentos forçados e execuções sumárias, mas também revelam a estrutura burocrática por trás da repressão. Esses papéis mostram que a violência não era apenas um excesso de indivíduos, mas uma política de Estado, meticulosamente planejada e executada.


    No entanto, mesmo com essas evidências, os "porões da ditadura" — tanto literais quanto metafóricos — permanecem em grande parte fechados. A Lei de Acesso à Informação, promulgada em 2011, foi um avanço importante, mas ainda há resistência em abrir completamente os arquivos da ditadura. Essa resistência não é apenas burocrática; é política. 

    

    Há um medo de que a exposição total da verdade possa desestabilizar narrativas consolidadas e questionar a impunidade de muitos que participaram do regime.


    Enquanto esses porões permanecerem fechados, a história da ditadura continuará sendo uma história de lacunas. E essas lacunas não são neutras — elas beneficiam aqueles que preferem esquecer ou distorcer o passado. 


    Para os familiares de desaparecidos políticos, para os sobreviventes da tortura e para a sociedade como um todo, a falta de acesso à verdade é uma forma de violência prolongada. É como se a ditadura ainda estivesse presente, negando o direito à memória e à justiça.


    Mas por que essa resistência em abrir os arquivos? Talvez porque a verdade seja incômoda. Ela expõe não apenas os crimes do passado, mas também as continuidades no presente. Muitas das estruturas de poder que sustentaram a ditadura ainda estão em vigor, embora de formas mais sutis. 


    A violência policial, a concentração de renda, a marginalização de grupos vulneráveis — tudo isso tem raízes que remontam ao período militar. Abrir os porões da ditadura significaria confrontar não apenas o que aconteceu, mas também o que ainda persiste.


    E aqui chegamos a um ponto crucial: a importância da memória. A memória não é apenas um registro do passado; é uma ferramenta para o presente e o futuro. Quando nos lembramos das vítimas da ditadura, das lutas pela democracia e da resistência contra a opressão, estamos afirmando que essas histórias importam. E mais do que isso, estamos dizendo que a justiça — ainda que tardia — é possível.


    No entanto, a memória também é um campo de disputa. Enquanto alguns lutam para preservar e divulgar a verdade, outros trabalham para distorcê-la ou apagá-la. É por isso que filmes, livros, documentários e outras formas de arte são tão importantes. Eles ajudam a manter viva a memória daqueles que resistiram e a desafiar as narrativas dominantes. 


    Este filme é um exemplo disso: ele não apenas conta uma história, mas também convida o espectador a refletir sobre o que foi silenciado.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Amor, Estranho Amor (1982)

    Este filme gerou diversas polêmicas, e uma delas, que voltou a ser discutida após trinta anos, envolve uma das personagens principais sendo interpretada por Xuxa Meneghel, a então futura "rainha dos baixinhos". Nunca me envolvi nesse tipo de polêmica, pois, sinceramente, não me intrometo na vida dos outros, famosos ou não. Cada um sabe de si.

    Para assistir aos filmes de Khouri é necessário estar atento aos detalhes e "Amor, estranho amor" não foge a esta regra. Você pode perder elementos importantes da narrativa se estiver preocupado com a "pipoca" logo no inicio do filme. O filme começa com um tom nostálgico, que só conseguimos compreender completamente ao longo da história ou, para alguns, apenas no final. Captar essa ideia é essencial para entender o desfecho.

    Ao assistir pela primeira vez, me intrigava um senhor (Wálter Forster) que observava os acontecimentos no casarão. Me perguntava: quem é esse homem que está sempre espreitando? E por que ninguém o nota? Seria um fantasma do casarão? A resposta só me veio no final do filme. Quando revi a obra, dei atenção especial à chegada desse personagem e suas interações ao longo da trama. Para ser sincero, a primeira vez que vi o filme não foi por interesse cultural, mas por curiosidade juvenil, justamente por saber que conheceria a rainha dos baixinhos mais intimamente.. Quando o filme foi lançado, eu era mais novo que o protagonista, Hugo, e sequer tinha idade para assisti-lo.

    Eu sei, o motivo não é nada nobre, mas não me culpem por isso, eu era apenas um moleque adolescente cheio de hormônios saindo por todo lado. 

    Como o filme já tem mais de quarenta anos, não vou temer spoilers. A narrativa acompanha as lembranças de Hugo adulto (Wálter Forster) sobre sua infância (Marcelo Ribeiro). Quando assisti pela primeira vez, não percebi de imediato que o homem misterioso era, na verdade, Hugo revivendo seu passado. O filme é uma reconstrução de sua memória, e nós, espectadores, acompanhamos essa jornada.

    A história se passa no período da ditadura Vargas, durante o Estado Novo. Hugo, ainda criança, passa alguns dias no casarão onde sua mãe trabalha. A casa é frequentada por figuras influentes da política e da sociedade, revelando hipocrisias típicas desse círculo. Os personagens vivem entre aparências e segredos, e Khouri apresenta isso com sua assinatura elegante.

    É neste espaço que todo o filme se desenrola. O menino é muito belo e, segundo consta no roteiro tem apenas 12 anos de idade. Entretanto, sua presença na casa abala as operárias do sexo que lá trabalham. E elas atacam o pobre menino descaradamente, sem pudor pela sua idade. Ainda que, segundo o roteiro elas também não sejam muito mais velhas do que isso. Xuxa mesmo, tinha somente 17 anos de idade (na vida real).

    Um menino de 12 anos em um bordel cheio de mulheres (supostamente meninas com 16 a 17 anos de idade). É inegável que o filme traz situações desconfortáveis pelos padrões atuais, apesar de sabermos que o problema de menores (principalmente mulheres) em casas de show adulto não deixou de existir, Algumas personagens interagem com Hugo de forma que hoje seria vista como inapropriada. Mesmo na década de 80, isso não passou despercebido, mas, na época, o olhar do cinema era diferente. De qualquer forma, é compreensível que, nos dias de hoje, esse aspecto do filme gere discussões mais acaloradas.

    Khouri também insere críticas políticas e sociais de forma sutil. Ele expõe a hipocrisia dos poderosos (Deus, pátria e família), que pregam valores morais em público, mas mantêm uma vida paralela nos bastidores. Esse contraste é apresentado de maneira elegante, sem cair em exageros. Retrata sutilmente a situação política que envolvia o país da década de 30/40, com o golpe de Estado realizado por Getúlio Vargas

    A verdade é que as memórias de Hugo me fazem inveja. Eu tive uma experiência assim quando garoto em um bar que era mantido por um meu tio-avô em sua cidadezinha. É verdade que não dá pra comparar a idade e beleza das mulheres do casarão do Hugo com as mulheres do casarinho do meu tio-avô.

    Sim, o filme tem um tom provocante, aquelas garotas que olham para o menino com aqueles olhares lascivos. É a sensualidade no ar. Até mesmo o casarão é apresentado com um ar de sensualidade, como se fosse uma dama quase nua. Segundo a carta da avó do garoto, ele foi parar no casarão na hora certa, pois parece que ele "tem se envolvido com sem-vergonhices" lá pelas bandas de Santa Catarina.

    O filme não apresenta cenas sexuais agressivas, é tudo bem sutil, com alguma nudez que eu diria de bom gosto. O sonho de muitos moleques de 12 anos da minha época, poder ver a beleza do corpo feminino sem pudor. E Hugo tem isso. Aliás, Hugo ia bem além de nossos sonhos de moleque, afinal de contas eram Vera Fischer, Xuxa, Vanessa Alves, verdadeiras loucuras da década de 80. Aliás, corpos lindos para um tempo em que não se abusavam dos recursos das clinicas de estética. 

    O menino ficou hospedado em um dos melhores quartos da casa, pois tinha acesso a todos os demais quartos e podia acompanhar a vida sexual de todas aquelas garotas, inclusive de sua própria mãe. Nunca vi nenhum estudo sobre o voyeurismo, mas acredito que este fetiche começa a se desenvolver nos meninos antes mesmo da adolescência.

    Outro ponto que me chamou a atenção é o nome do protagonista. Hugo é também o nome do meio do diretor, Walter Hugo Khouri. Isso me faz pensar se o filme tem alguma relação com sua própria história. Posso estar enganado, mas a ideia me intriga.

    Quanto as cenas de sexo, não há nada explicito e a cena um pouco mais quente é protagonizada por Anna (Vera Fischer) e Dr. Osmar (Tarcísio Meira). Tirando os beijos que não são bonitos, a cena em si é bonita, bem produzida. Já, nas cenas com o menino Hugo, não eram cenas de sexo, mas umas cenas extremamente sensualizadas, que escandalizaria muita gente se o filme fosse gravado nas circunstâncias atuais. Ele era só uma criança, e as mulheres se revezavam na bolinação em seu quarto de sótão.

    Uma coisa que achei macabra foi o urso (Xuxa fantasiada) que o Dr. Benício (Mauro Mendonça). O que é aquilo, a fantasia é muito feia, totalmente btochante.

    O filme é cheio de situações polêmicas, a começar por seu próprio nome, e no final do filme é que compreendemos porque "estranho amor". Mas a real polêmica que reviveu alguns anos depois, talvez, até depois do filme ter ficado esquecido em algum canto, foi a questão Xuxa Meneghel. Sim, a rainha dos baixinhos faz cenas de nudez, não tão nua assim, somente o suficiente para enlouquecer a cabeça dos baixinhos. O pior foi, justamente a rainha dos baixinhos cometendo abusos contra um baixinho.

    Vejo a polêmica de Xuxa como um caso clássico da hipocrisia da sociedade brasileira. Uma sociedade que é limpinha por cima, mas, por baixo, puro lamaçal. Independentemente de qualquer julgamento pessoal, ela era uma atriz jovem em início de carreira, aceitando papéis como qualquer profissional do ramo. Criticar se um ator ou atriz deve aceitar determinado papel é válido, mas julgar a moralidade da pessoa por isso é questionável. Certamente que há um limite para a questão moral, e creio que este limite seja determinados pela lei, entretanto, se a lei não a condena, como poderemos nós o fazer?

    No fim das contas, "Amor, Estranho Amor" é um filme que merece ser analisado pelo que é: uma obra cinematográfica que aborda temas complexos com uma fotografia bem trabalhada e uma direção refinada. Seu tom provocante pode incomodar algumas audiências, mas para quem aprecia o cinema de Khouri, é uma obra relevante. O filme não é para todos, mas quem se interessa por cinema brasileiro dos anos 80 pode encontrar nele um retrato interessante da época.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Memória Que Me Contam (2013)

    O filme "Memória Que Me Contam" trata da nebulosa história brasileira durante a ditadura militar, mas não é exatamente um documentário ou um filme histórico. É uma ficção que se baseia em situações reais e experiências de pessoas que viveram aquele período. Ou seja, os personagens são ficcionais, mas inspirados em diversas personalidades dos revolucionários da época. E o filme traz memórias reais, porque é baseado nas experiências da própria diretora, Lucia Murat.

    Não considero o filme ruim. Ele tem uma bela fotografia, com uma iluminação bem bonita, e, mesmo sendo em sua maioria ambientado dentro de um hospital, as cenas externas são muito bem feitas e bem escolhidas. Mas, mesmo assim, não é um filme fácil de assistir.

    Primeiro, o espectador precisa lidar com uma história fragmentada, que realmente dá a impressão de lembranças desconexas, como se fossem memórias soltas. Outra coisa é a sensação de caos. Tudo parece meio bagunçado, como se fosse realmente a memória desordenada de alguém. Por isso, não é um filme para quem não tem muito conhecimento sobre a história do Brasil, especialmente o golpe militar. As coisas não são explicadas como em um documentário ou filme histórico. É preciso entender um pouco do contexto para não se perder.

    Como quase todos os filmes brasileiros, esse também exige paciência, porque é bem lento. Também exige atenção, para não se perder no meio da história. Não é o tipo de filme para assistir em grupo, a menos que seja com pessoas que já saibam o que esperar e que tenham interesse no tema.

    Um exemplo do que, para mim, quebra o ritmo dos filmes brasileiros é a cena inicial, com o mar quebrando na praia e logo depois o personagem dirigindo em uma chuva torrencial; nessa cena inicial, a primeira fala da cena surge somente depois de um minuto e meio. É uma cena longa, e esse minuto e meio poderia ter sido muito mais curto, sem prejudicar o impacto que o filme quer passar. Pode parecer pouco, mas para um filme, um minuto e meio é bastante tempo.

    É claro que a cena inicial tem como objetivo transmitir a profundidade do filme e explorar as reflexões sobre as memórias dos personagens e seus traumas. Essas intervalos demasiadamente longos nas cenas é uma característica que me incomoda nos filmes brasileiros. Se a cena fosse mais compacta, ela ainda passaria a mesma mensagem e tornaria o filme mais dinâmico.

    O filme usa um recurso interessante, que é intercalar personagens do passado como figuras "presentes" no ambiente. Embora seja um recurso criativo, ele acaba intensificando a sensação de caos. Normalmente, estamos acostumados a ver cortes ou efeitos que deixam claro quando o filme está retratando o passado.

    A maior impressão que tive durante o filme foi a de estarmos entrando na vida de alguém conhecido recentemente. Nós não sabemos quem são outras pessoas que o rodeiam, seus parentes, seus amigos. Tudo nos parece muito fragmentado. É comum que nos filmes, os personagens sejam apresentados aos poucos, junto com suas histórias e conexões. Entretanto, no caso deste filme, onde a dinâmica muito lenta, ficou difícil me conectar com os personagens e entender quem eles eram.

    Parece que a intenção do filme é justamente destacar as histórias que essas memórias representam, mais do que os próprios personagens. Afinal, dá a impressão de que as memórias são, na verdade, o personagem principal, já que os demais personagens não representam pessoas específicas da vida real.

    No geral, o filme não traz grandes novidades históricas para quem já conhece bem a história do golpe militar de 64. Como entretenimento, também não funciona muito bem, porque não tem aquele poder de manter o espectador interessado por mais de uma hora e meia. Para quem já conhece a história dos principais revolucionários da época, as memórias não trazem nada de novo ou relevante.

    O filme explora as condições psicológicas dos personagens: os traumas que eles carregam e as dores das quais muitos não se recuperaram, dada a violência sofrida nas mãos do regime militar.

    Uma parte interessante do filme é quando ele levanta a discussão sobre os erros e exageros cometidos também por alguns grupos dos revolucionários. É algo que, embora compreensível, não justifica a violência. Como escreveu o poeta popular das ruas, Gentileza: Gentileza gera gentileza. Isso nos leva a ideia de que "violência gera violência",  uma perspectiva que faz sentido, especialmente ao compararmos com a atual abordagem violenta de combate à criminalidade no Brasil.

    Talvez minha decepção tenha vindo da alta expectativa que eu tinha para o filme. Não é o tipo de história com começo, meio e fim, mas mais como a vida cotidiana, onde nada define o início ou o fim, exceto o raiar do dia e o anoitecer. O final de um tempo na história, e não o final de uma história em si.

    As cenas do filme não criam aquele suspense que nos faz querer ver o que vem a seguir. Se eu parasse de assistir a qualquer momento, não teria a sensação de estar perdendo algo importante, porque a cena não nos gera a expectativa para saber o que vai acontecer depois. Em alguns momentos, até pensei em pular algumas cenas, e confesso, cheguei a aumentar a velocidade de exibição para 1,5x.

    A segunda parte do filme as coisas melhoram um pouco, os diálogos se tornam mais interessantes, além de apresentar o quanto os grupos revolucionários tinham ideias diferentes, ainda que compartilhassem da mesma ideologia e o mesmo desejo de liberdade.

    Enfim, ainda não me sinto preparado para esse tipo de filme. Ele se tornou difícil de assistir e cansativo, apesar do meu interesse em entender mais sobre o período da ditadura.

domingo, 26 de janeiro de 2025

"Bonitinha, mas Ordinária": Duas versões, dois Brasis

    Para começar nossa lista, escolhi comparar as duas versões de "Bonitinha, mas Ordinária": a de 1981, dirigida por Braz Chediak, e a de 2013, dirigida por Moacyr Góes. Ambas são baseadas na obra de Nelson Rodrigues, um dos maiores dramaturgos brasileiros, conhecido por retratar o cotidiano do Brasil com uma acidez e um exagero que parecem saídos de conversas de boteco. Seus textos sempre escancararam a hipocrisia da sociedade, e isso está presente nas duas adaptações, mas de formas bem diferentes.

    Vamos começar pela versão de 1981, que, na minha opinião, é muito superior à de 2013. O filme do Chediak consegue captar melhor a malícia, o tom ácido e as nuances da escrita de Nelson Rodrigues. As falas são mais fiéis ao texto original, e as interpretações, embora um pouco teatrais, dão aquela sensação de artificialidade que combina demais com o clima de "conversa de boteco" que o autor tanto gostava.


    Além disso, o filme de 81 é mais explícito, o que aumenta o impacto das cenas. E isso é puro Nelson Rodrigues: ele adorava chocar a sociedade. As conversas sociais, cheias de pensamentos machistas, homofóbicos e racistas, são escancaradas, mostrando a degradação da burguesia e a crença no poder do dinheiro para comprar tudo. A violência sexual, por exemplo, é retratada de forma crua, refletindo a mentalidade da época (e que, infelizmente, ainda persiste em muitos casos). Uma das falas mais marcantes é a do Dr. Werneck, pai da Maria Cecília, que diz:


"Hoje, ninguém mais liga pra cabaço. E outra. Tem o médico; a mulher sai mais virgem do que entrou. É o Pitanguy das xoxotas."

 

    Essa fala, dita quase como uma piada, mostra como a violência contra a mulher era banalizada. E é aí que o filme acerta: ele não tem medo de ser incômodo.


    Claro, não dá pra falar do cinema brasileiro dos anos 80 sem mencionar a influência das pornochanchadas dos anos 70. A erotização era um traço marcante, mas, ao contrário das comédias picantes da década anterior, os filmes dos anos 80 traziam críticas sociais mais profundas. A nudez e o sexo estavam lá, mas como pano de fundo, não como foco principal. E isso revela outra faceta da hipocrisia brasileira: enquanto a sociedade criticava a "depravação" dos filmes, muitos dos críticos eram justamente os alvos das histórias, que mostravam o que eles faziam longe das câmeras.


    Agora, vamos falar da versão de 2013. Confesso que esperava muito mais. Afinal, contamos com grandes atores na atualidade e uma tecnologia muito mais avançada do que nos anos 80. Mas, infelizmente, o filme não entregou.


    O primeiro erro foi tentar atualizar o cenário sem atualizar a história. O resultado foi uma mistura estranha, com elementos dos anos 70/80 num contexto supostamente moderno. Por exemplo, a ideia de uma família rica forçando a filha a se casar porque ela perdeu a virgindade (mesmo que por uma violência sexual) já não faz sentido nos dias de hoje. Em famílias conservadoras, talvez ainda exista algo parecido, mas não é mais a realidade do Brasil.


    Outro problema foi a tentativa de justificar a famosa frase do Otto: "O mineiro só é solidário no câncer". A direção decidiu explicar essa frase ao longo do filme e, talvez com medo de ofender os mineiros, mudou para "O brasileiro só é solidário no câncer". Até entendo a preocupação, mas a justificativa acabou prejudicando o ritmo da história. E, sinceramente, acho que Nelson Rodrigues (ou Otto Lara Resende, a quem a frase é atribuída) estava falando da humanidade como um todo, não só dos mineiros ou dos brasileiros.


    A versão de 2013 também pecou ao suavizar as cenas de nudez e violência sexual. Entendo a preocupação em tornar o filme mais palatável, mas isso acabou tirando o impacto que Nelson Rodrigues tanto gostava de provocar. As cenas de violência, por exemplo, foram tão amenizadas que perderam a força dramática. E isso é um problema, porque a crítica à hipocrisia e à violência sexual é um dos pilares da obra.


    Outro ponto que não funcionou foi a tentativa de misturar o contexto dos anos 80 com elementos atuais. A cena da violência sofrida pelas irmãs de Ritinha, por exemplo, no filme de 81, era clara e impactante: uma família rica e moralmente decadente, com festas seletas e convidados da mais alta sociedade. Já na versão de 2013, a cena é caótica e confusa, sem deixar claro o nível social dos participantes. O caos acaba tirando o foco do crime em si.


    No fim das contas, a versão de 1981 é bem mais fiel ao espírito de Nelson Rodrigues. As atuações, embora um pouco teatrais, são boas, e as cenas de nudez, apesar de presentes, são bem trabalhadas. Claro, poderiam ser suavizadas sem prejuízo para o filme, mas a sensualidade era uma característica marcante do cinema brasileiro da época. Já as cenas de violência, embora chocantes, são discretas e bem feitas, ainda que corram o risco de serem vistas com um certo tom de sensualidade, o que é um problema.


    Enfim, a versão de 1981 é, sem dúvida, a melhor das duas. A de 2013 até tenta, mas acaba perdendo a essência da obra de Nelson Rodrigues. Se você quer entender o que o autor queria dizer, vá de 81. Mas, se for assistir, esteja preparado: é um filme que incomoda, e é pra incomodar mesmo.