quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Amor, Estranho Amor (1982)

    Este filme gerou diversas polêmicas, e uma delas, que voltou a ser discutida após trinta anos, envolve uma das personagens principais sendo interpretada por Xuxa Meneghel, a então futura "rainha dos baixinhos". Nunca me envolvi nesse tipo de polêmica, pois, sinceramente, não me intrometo na vida dos outros, famosos ou não. Cada um sabe de si.

    Para assistir aos filmes de Khouri é necessário estar atento aos detalhes e "Amor, estranho amor" não foge a esta regra. Você pode perder elementos importantes da narrativa se estiver preocupado com a "pipoca" logo no inicio do filme. O filme começa com um tom nostálgico, que só conseguimos compreender completamente ao longo da história ou, para alguns, apenas no final. Captar essa ideia é essencial para entender o desfecho.

    Ao assistir pela primeira vez, me intrigava um senhor (Wálter Forster) que observava os acontecimentos no casarão. Me perguntava: quem é esse homem que está sempre espreitando? E por que ninguém o nota? Seria um fantasma do casarão? A resposta só me veio no final do filme. Quando revi a obra, dei atenção especial à chegada desse personagem e suas interações ao longo da trama. Para ser sincero, a primeira vez que vi o filme não foi por interesse cultural, mas por curiosidade juvenil, justamente por saber que conheceria a rainha dos baixinhos mais intimamente.. Quando o filme foi lançado, eu era mais novo que o protagonista, Hugo, e sequer tinha idade para assisti-lo.

    Eu sei, o motivo não é nada nobre, mas não me culpem por isso, eu era apenas um moleque adolescente cheio de hormônios saindo por todo lado. 

    Como o filme já tem mais de quarenta anos, não vou temer spoilers. A narrativa acompanha as lembranças de Hugo adulto (Wálter Forster) sobre sua infância (Marcelo Ribeiro). Quando assisti pela primeira vez, não percebi de imediato que o homem misterioso era, na verdade, Hugo revivendo seu passado. O filme é uma reconstrução de sua memória, e nós, espectadores, acompanhamos essa jornada.

    A história se passa no período da ditadura Vargas, durante o Estado Novo. Hugo, ainda criança, passa alguns dias no casarão onde sua mãe trabalha. A casa é frequentada por figuras influentes da política e da sociedade, revelando hipocrisias típicas desse círculo. Os personagens vivem entre aparências e segredos, e Khouri apresenta isso com sua assinatura elegante.

    É neste espaço que todo o filme se desenrola. O menino é muito belo e, segundo consta no roteiro tem apenas 12 anos de idade. Entretanto, sua presença na casa abala as operárias do sexo que lá trabalham. E elas atacam o pobre menino descaradamente, sem pudor pela sua idade. Ainda que, segundo o roteiro elas também não sejam muito mais velhas do que isso. Xuxa mesmo, tinha somente 17 anos de idade (na vida real).

    Um menino de 12 anos em um bordel cheio de mulheres (supostamente meninas com 16 a 17 anos de idade). É inegável que o filme traz situações desconfortáveis pelos padrões atuais, apesar de sabermos que o problema de menores (principalmente mulheres) em casas de show adulto não deixou de existir, Algumas personagens interagem com Hugo de forma que hoje seria vista como inapropriada. Mesmo na década de 80, isso não passou despercebido, mas, na época, o olhar do cinema era diferente. De qualquer forma, é compreensível que, nos dias de hoje, esse aspecto do filme gere discussões mais acaloradas.

    Khouri também insere críticas políticas e sociais de forma sutil. Ele expõe a hipocrisia dos poderosos (Deus, pátria e família), que pregam valores morais em público, mas mantêm uma vida paralela nos bastidores. Esse contraste é apresentado de maneira elegante, sem cair em exageros. Retrata sutilmente a situação política que envolvia o país da década de 30/40, com o golpe de Estado realizado por Getúlio Vargas

    A verdade é que as memórias de Hugo me fazem inveja. Eu tive uma experiência assim quando garoto em um bar que era mantido por um meu tio-avô em sua cidadezinha. É verdade que não dá pra comparar a idade e beleza das mulheres do casarão do Hugo com as mulheres do casarinho do meu tio-avô.

    Sim, o filme tem um tom provocante, aquelas garotas que olham para o menino com aqueles olhares lascivos. É a sensualidade no ar. Até mesmo o casarão é apresentado com um ar de sensualidade, como se fosse uma dama quase nua. Segundo a carta da avó do garoto, ele foi parar no casarão na hora certa, pois parece que ele "tem se envolvido com sem-vergonhices" lá pelas bandas de Santa Catarina.

    O filme não apresenta cenas sexuais agressivas, é tudo bem sutil, com alguma nudez que eu diria de bom gosto. O sonho de muitos moleques de 12 anos da minha época, poder ver a beleza do corpo feminino sem pudor. E Hugo tem isso. Aliás, Hugo ia bem além de nossos sonhos de moleque, afinal de contas eram Vera Fischer, Xuxa, Vanessa Alves, verdadeiras loucuras da década de 80. Aliás, corpos lindos para um tempo em que não se abusavam dos recursos das clinicas de estética. 

    O menino ficou hospedado em um dos melhores quartos da casa, pois tinha acesso a todos os demais quartos e podia acompanhar a vida sexual de todas aquelas garotas, inclusive de sua própria mãe. Nunca vi nenhum estudo sobre o voyeurismo, mas acredito que este fetiche começa a se desenvolver nos meninos antes mesmo da adolescência.

    Outro ponto que me chamou a atenção é o nome do protagonista. Hugo é também o nome do meio do diretor, Walter Hugo Khouri. Isso me faz pensar se o filme tem alguma relação com sua própria história. Posso estar enganado, mas a ideia me intriga.

    Quanto as cenas de sexo, não há nada explicito e a cena um pouco mais quente é protagonizada por Anna (Vera Fischer) e Dr. Osmar (Tarcísio Meira). Tirando os beijos que não são bonitos, a cena em si é bonita, bem produzida. Já, nas cenas com o menino Hugo, não eram cenas de sexo, mas umas cenas extremamente sensualizadas, que escandalizaria muita gente se o filme fosse gravado nas circunstâncias atuais. Ele era só uma criança, e as mulheres se revezavam na bolinação em seu quarto de sótão.

    Uma coisa que achei macabra foi o urso (Xuxa fantasiada) que o Dr. Benício (Mauro Mendonça). O que é aquilo, a fantasia é muito feia, totalmente btochante.

    O filme é cheio de situações polêmicas, a começar por seu próprio nome, e no final do filme é que compreendemos porque "estranho amor". Mas a real polêmica que reviveu alguns anos depois, talvez, até depois do filme ter ficado esquecido em algum canto, foi a questão Xuxa Meneghel. Sim, a rainha dos baixinhos faz cenas de nudez, não tão nua assim, somente o suficiente para enlouquecer a cabeça dos baixinhos. O pior foi, justamente a rainha dos baixinhos cometendo abusos contra um baixinho.

    Vejo a polêmica de Xuxa como um caso clássico da hipocrisia da sociedade brasileira. Uma sociedade que é limpinha por cima, mas, por baixo, puro lamaçal. Independentemente de qualquer julgamento pessoal, ela era uma atriz jovem em início de carreira, aceitando papéis como qualquer profissional do ramo. Criticar se um ator ou atriz deve aceitar determinado papel é válido, mas julgar a moralidade da pessoa por isso é questionável. Certamente que há um limite para a questão moral, e creio que este limite seja determinados pela lei, entretanto, se a lei não a condena, como poderemos nós o fazer?

    No fim das contas, "Amor, Estranho Amor" é um filme que merece ser analisado pelo que é: uma obra cinematográfica que aborda temas complexos com uma fotografia bem trabalhada e uma direção refinada. Seu tom provocante pode incomodar algumas audiências, mas para quem aprecia o cinema de Khouri, é uma obra relevante. O filme não é para todos, mas quem se interessa por cinema brasileiro dos anos 80 pode encontrar nele um retrato interessante da época.