quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

A Metade de Nós (2024)



    O filme começa de forma crua e intensa, abordando a história de um casal em luto: Carlos (Cacá Amaral) e Francisca (Denise Weinberg), que perderam o filho para o suicídio. Devastada, a mãe confronta o médico, Sérgio (Henrique Schafer), responsabilizando-o pelo ato do filho. O que se desenrola a seguir é o desmoronamento de duas vidas já marcadas pelo tempo, agora esmagadas pela tragédia. Como compreender o desespero que leva alguém a tirar a própria vida? Teria sido possível evitar? São perguntas que ecoam sem resposta definitiva.

    As cenas iniciais são profundamente marcantes e nos levam a refletir: como um pai e uma mãe se sentem após perderem um filho de maneira tão dolorosa, por um ato cometido pelo próprio? O que se diz, o que se pensa, o que se faz diante de um luto tão avassalador, antes mesmo de se conseguir, minimamente, superar a dor e a tristeza?

    A cena em que os pais assistem aos vídeos do filho ainda criança é profundamente tocante, especialmente para aqueles que, como nós, já acumularam anos de vida e acompanharam o crescimento de tantos pequeninos em sua família. Os carregamos no colo, celebramos os primeiros passos, as primeiras palavras, as primeiras gracinhas. E então, diante dessa cena, surge um pensamento inquietante: será que não estamos à beira de testemunhar algo tão terrível próximo a nós? Seria possível percebermos os sinais a tempo, antes da fatalidade?

    Como sempre digo, um dos males dos filmes brasileiros é a lentidão que certas cenas criam. Mas, neste caso, os momentos de silêncio falam tão alto quanto os próprios diálogos. O movimento contido das pessoas dentro da casa já é, por si só, uma forma de comunicação. As tentativas de seguir em frente, de manter as ações cotidianas, revelam uma solidão profunda e uma dor invisível que paira sobre cada um daqueles pais.

    E então, somos tomados pela angústia e agonia daquela mãe que acorda sobressaltada durante a noite. O pai, embora compartilhe da mesma dor, tenta demonstrar menos sensibilidade, menos emotividade, enquanto a mãe não consegue disfarçar o sofrimento que a consome. Mas até onde é possível manter a força diante de uma perda tão devastadora, sem desmoronar em tristeza? E quando menos se espera, a fragilidade se revela em toda a sua intensidade.

    Não é um filme fácil de assistir. O tema é duro, e nos faz acompanhar o luto do casal em toda a sua dor—a sensação de um sofrimento sem fim. Como espectadores, vivenciamos essa angústia como se fosse nossa, sentindo cada instante dessas duas vidas que tentam se reequilibrar. A cada diálogo, transparece a impressão de que a vida perdeu o sentido. Como seguir em frente diante de uma perda tão avassaladora?

    Cada família, cada casal e cada indivíduo reage de forma diferente. Alguns encontram apoio mútuo, outros acabam se destruindo—como acontece com os protagonistas desta história.

    A cena do elevador entre Carlos e Hugo (Kelner Macêdo) carrega um constrangimento silencioso, mas extremamente significativo. Até esse momento, não sabemos muito sobre o filho de Carlos, mas a proximidade etária entre ele e Hugo sugere uma conexão implícita. Será que eles se parecem? Será que Hugo conhece a história do vizinho? O encontro, por mais breve que seja, evidencia a dor invisível que Carlos carrega e nos faz refletir sobre como o luto pode se manifestar nos detalhes mais banais do cotidiano.

    Francisca nos faz refletir sobre os limites do desespero de uma mãe diante da perda. Até onde ela pode ir em sua busca por respostas? Sua obsessão em acompanhar a vida do terapeuta do filho parece ser uma tentativa de encontrar uma lógica no que aconteceu, como se entender cada detalhe da vida desse profissional pudesse revelar aquilo que ela não conseguiu enxergar a tempo.

    Enquanto isso, Carlos busca no jovem vizinho uma forma de preencher o vazio deixado pelo filho. É como se cada um dos pais escolhesse um caminho próprio para lidar com a ausência — ela, investigando e revivendo o passado; ele, tentando projetar um novo vínculo no presente. Ambos, no fundo, presos à mesma dor, mas expressando-a de formas distintas.

    À medida que a trama avança, começamos a conhecer melhor Hugo e, por consequência, também compreendemos um pouco mais sobre Carlos. O relacionamento entre os dois vai se tornando mais claro, revelando não apenas a busca de Carlos por algum tipo de substituição afetiva.

    Paralelamente, Francisca continua sua vigília sobre o terapeuta de seu filho. Suas motivações se tornam mais evidentes: não se trata apenas de curiosidade ou culpa, mas de uma necessidade quase desesperada de encontrar uma resposta definitiva para o que aconteceu.

    Como eu disse anteriormente, não é um filme fácil de assistir? Não, não é um filme de entretenimento. É um filme que nos convida a refletir sobre as questões emocionais e psíquicas que envolvem o ser humano em toda a sua complexidade.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Missão Porto Seguro (2025)


    É difícil definir qual é a proposta do filme. Era para ser um filme de ação com toques de comédia? Ou uma comédia com elementos de ação? No fim, não consegue ser nem uma coisa nem outra. A ação não empolga, a comédia não funciona. O estereótipo da patricinha influencer ainda adiciona uma boa dose de vergonha alheia.

    A investigadora Denise (Giovanna Lancellotti), que quase se incendeia sem perceber, flerta com o ridículo. A trama do pai linha-dura que exige perfeição dos filhos e do herdeiro que precisa provar seu valor no trabalho já soa desgastada, repetitiva. Para não dizer que tudo é ruim, as tomadas das cidades são um acerto — bem escolhidas e visualmente bonitas, com destaque para as imagens de Porto Seguro.

    E o diálogo da carteira de identidade no bar? Parece existir apenas para dizer ao espectador: "Olha, ela tem cara de menor de idade." Mas não é bem assim. Ok, ela é jovem, mas daí a se passar por uma adolescente? É preciso um esforço enorme para acreditar. E Denise, ao tentar interpretar uma adolescente, fica mais parecida com uma completa debiloide do que com uma jovem. Aliás, quase ninguém do elenco "adolescente" realmente convence no papel.

    Bom, espero que os adolescentes de hoje não se pareçam com os deste filme — caso contrário, só posso lamentar por eles. E aquele esforço desesperado da Denise para se enturmar? Forçado ao extremo. A vibe adolescente que o filme tenta vender é simplesmente insuportável. Por pouco não desisti de assistir por causa disso.

    Gosto da Giovanna, gosto muito do Falabella. E embora não conheça tão bem o Babu Santana, os poucos trabalhos que vi dele me agradaram bastante. Mas nem a presença deles conseguiu salvar este filme para mim. Simplesmente achei muito chato. E isso é tudo que tenho sobre este filme.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

A Noite das Taras (1980)

    Com um título como A Noite das Taras, a expectativa inevitável é de um filme erótico ou pornográfico. Mas ele falha em ser qualquer um dos dois. Pouco explícito para ser classificado como pornô, direto demais para ser considerado erótico. Na verdade, trata-se de um filme mosaico, composto por três histórias que giram em torno de marinheiros seduzidos pelo canto da sereia – só que bem longe do mar.

    O ritmo é lento, o que não chega a ser uma surpresa para o cinema brasileiro. Alguns filmes conseguem justificar essa lentidão ao construir atmosferas envolventes – seja retratando a aridez do sertão ou explorando a beleza de um cenário cativante. Mas esse não é o caso aqui. As cenas são arrastadas sem que se extraiam delas qualquer imersão ou significado maior.

Primeira história: A Carta de Érico

    A primeira impressão é de atuações artificiais, teatrais demais para as telas. O cenário urbano já nos insere no caos de uma grande cidade dos anos 80, mas sem grande envolvimento narrativo.

    Cibele (Patrícia Scalvi) está trancada em seu apartamento, contemplando várias formas de suicídio: veneno, arma, navalha. Mas hesita. Quando parece finalmente decidida a usar a navalha – o método mais doloroso entre os que cogitou –, batidas na porta interrompem seu plano. Um mensageiro chega com uma carta. Podemos dizer que foi "salva por um bilau".

    O mensageiro é uma figura peculiar. Invade o espaço de Cibele com uma naturalidade absurda, movendo-se pelo apartamento sem pedir licença. Ele tem um jeito engraçado, embora seja descaradamente folgado. Cibele, por sua vez, não se interessa nem pela carta nem pelo portador. Segue para o quarto, ainda determinada a pôr fim à própria vida.

    A essa altura, uma pergunta paira no ar: quem é Érico, o remetente da mensagem?

    Esta história, em particular, até consegue construir uma boa dose de expectativa. A iminência do suicídio mantém a tensão, enquanto os diálogos, rememorados, entre o mensageiro e o enigmático Érico guiam a narrativa. Mas o que incomoda é a lentidão frustrante da protagonista: mesmo sentada ao lado do mensageiro, ainda hesita em abrir a carta. Mulher, abre logo essa correspondência!

    O próprio mensageiro, num lampejo de brilhantismo, sugere: "Por que não ler a carta e ver se ela esclarece algo?"
    Oh, great idea. E então, enfim, a surpresa. Preciso admitir que fui pego de leve desprevenido.

Segunda história: Peixe Fora D'água

    Simplesmente horrível. Atuação ruim, diálogos ainda piores. Até as cenas de sexo – que deveriam ser o carro-chefe do filme – são artificiais e desinteressantes. No fim, temos quase meia hora de tempo desperdiçado.

Terceira história: Julio e o Paraíso

    Cenário noturno, cidade agitada. Julio, generoso, leva cinco mulheres esfomeadas ao Eduardo’s Rodízio. Os diálogos são um pouco menos sofríveis, mas ainda distantes de qualquer envolvimento real. Pelo menos, essa última história entrega um erotismo mais assumido – ainda que sem grande beleza ou impacto.

Conclusão

    Filme difícil de assistir. Uma mistura indigesta de Ilha da Fantasia, Além da Imaginação e Nelson Rodrigues – só que de terceira categoria. Nenhuma das histórias se sustenta. Como narrativa erótica, falha. Como pornô, também não diz a que veio. No fim das contas, A Noite das Taras entrega menos do que promete e não tem nada que realmente valha a pena.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Vítimas do Dia (2025)

    Desde os primeiros minutos de Vítimas do Dia, senti-me claustrofóbico. Era como se eu estivesse assistindo ao filme de dentro de uma caixa fechada. A tensão cresce sem trégua e, quando parece que chegamos ao limite – que tudo o que resta é aguardar o final da guerra entre milicianos e traficantes –, o filme encontra novas formas de nos sufocar. O desespero não é apenas o dos que estão presos no mercado, mas também daqueles que vivem encarcerados dentro de suas próprias casas, como Daiane e sua irmã.


    O filme recorta com precisão a violência cotidiana que assombra parte da sociedade brasileira. Em uma metrópole, uma simples tarefa do dia a dia pode se transformar em uma aventura pelo trânsito da grande cidade e terminar em uma tragédia como uma guerra entre milicianos e traficantes. Nada é seguro, nada é previsível. E o mais perturbador é que essa sensação de risco não é uma paranoia, mas uma quase certeza. A qualquer momento, tudo pode mudar.

    A fotografia traduz essa dureza. Tudo no filme reforça a aspereza da realidade que retrata. Não se trata apenas da violência física – há também o peso das vidas individuais dos personagens, que já enfrentam batalhas pessoais antes mesmo de ficarem presas no mercado. Uma gravidez inesperada, uma aposentadoria compulsória, a hostilidade de um novo ambiente de trabalho – problemas que, isoladamente, já são difíceis, mas que, dentro do contexto do filme, ganham um peso ainda maior.

    E então, como se já não bastasse, tudo fica ainda pior. Um tiroteio os obriga a se trancarem dentro do mercado por horas. Horas de medo, tensão e incerteza. As atuações são intensas, cada olhar e gesto carregado de desespero. Mesmo fora do mercado, a sensação de perigo persiste. Na casa de Daiane e Elder, onde se espera um mínimo de refúgio, a inquietação só aumenta. A demora do marido, a falta de notícias, a falta de contato por telefone, a queda de energia – cada detalhe amplia o pânico.

    Apesar de o filme tratar de violência armada, senti que a cena da discussão sobre armas foi um ponto destoante. Minha posição pessoal é contrária ao armamento, e, embora o diálogo expresse exatamente o que penso, a forma como ele foi inserido soa forçada, quase didática demais. Não consigo imaginar um grupo de pessoas, em meio a um tiroteio, parando para debater o tema daquela maneira.

    Não é um bom filme para mim. Não por falta de qualidade – Vítimas do Dia é uma obra muito bem executada, com atuações marcantes e uma construção impecável de tensão –, mas porque me causa um desconforto profundo. Ele é tenso, angustiante, desesperador. Senti o desespero de Daiane como se fosse meu. E talvez esse seja o verdadeiro impacto do filme: ele não é um retrato distante de uma realidade alheia. Ele fala sobre um mundo que, embora pareça distante para alguns, pode estar a poucos quilômetros de distância. Poderia ser eu naquele lugar. Poderia ser alguém próximo a mim.

    Ainda assim, apesar de toda a brutalidade, o filme se encerra com um respiro – um vislumbre de esperança, de nascimento e renascimento.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

O Que é Isso Companheiro? (1997)

    O filme é um recorte da história brasileira durante a ditadura militar, iniciada em 1964. 

    


 
A abertura nos apresenta imagens das décadas de 60 e 70, sugerindo uma vida aparentemente normal: pessoas se divertindo, festejando no carnaval, como se a alegria fosse a tônica da época. No entanto, a cena inicial desmonta essa ilusão. Uma gigantesca passeata exige o fim da ditadura, mas é violentamente reprimida pela polícia. Essa cena deixa claro que a liberdade era uma miragem. Em governos democráticos, as pessoas têm o direito de se manifestar, mesmo que seja contra o próprio governo. Na ditadura, esse direito era negado, e a violência era a resposta a qualquer dissidência.


    Hoje, algumas vozes saudosistas exaltam a ditadura militar, afirmando que era uma época de maior segurança, respeito e menos corrupção. 


    Essas narrativas, porém, ignoram que a violência daquela época era menos visível, não menos real. As informações eram controladas, e apenas casos extremos chegavam aos jornais de alcance nacional. Hoje, com a internet, a violência é exposta em tempo real, em escala global. Além disso, havia a violência oculta nos porões da ditadura, onde torturavam não apenas os opositores declarados, mas qualquer um sob suspeita. 


    Quanto ao "respeito", trata-se de uma nostalgia geracional: toda geração tende a ver a seguinte como "degenerada". 


    E a corrupção? Arquivos revelam que ela existia, mas era encoberta pela falta de transparência.


    O filme também contrasta a guerra interna no Brasil com os tempos áureos dos EUA, simbolizados pela vitória na corrida espacial com a chegada do homem à Lua. Esse contraste é crucial, pois documentos revelados após o fim da Guerra Fria mostram o envolvimento dos EUA no golpe de 64. Essa prática de patrocinar golpes em outras nações não era novidade — os EUA justificavam suas ações como uma luta contra o "comunismo", o inimigo criado para legitimar intervenções. Mesmo após a Guerra Fria, essa política de guerras indiretas e apoio a golpes persiste, independentemente do regime ou ideologia do país-alvo.


    Os militares alegavam que seu objetivo era manter a ordem e promover o crescimento do país. Antes, eu duvidava que uma ditadura pudesse alcançar isso. Hoje, reconheço que é teoricamente possível, mas apenas se os líderes fossem dotados de um rigor moral excepcional. O problema é que o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Uma ditadura "benevolente" seria uma contradição nos termos.


    O filme retrata a formação de um grupo de resistência que luta contra o regime capitalista em prol de uma versão comunista de governo. No entanto, é importante lembrar que a oposição à ditadura era diversa: havia desde comunistas até quem apenas desejava o fim do autoritarismo. 


    O filme foca em um grupo específico, cujo objetivo era denunciar as atrocidades do regime, especialmente após o Ato Institucional nº 5, que calou a imprensa e intensificou a repressão. A solução? Uma ação ousada: sequestrar o embaixador dos EUA, uma potência global cujo envolvimento no golpe já era suspeito. O sequestro não visava apenas a libertação de presos políticos, mas expor ao mundo a face brutal da ditadura.


    A cena do assalto a um banco, por exemplo, não era apenas uma forma de financiar o grupo, mas também de transmitir suas razões à população. Apesar dos riscos, o grupo agia com um propósito maior, como fica claro no diálogo de Luiz Fernando Guimarães. 


    O filme também mostra a organização dos revolucionários, sua intelectualidade e as táticas usadas para escapar da repressão. Eram estudantes, trabalhadores, pessoas comuns que se sentiam oprimidas — não "bandidos", como o regime tentava retratá-los.


    O sequestro do embaixador foi um marco. Apesar dos erros cometidos pelo grupo, a ação foi bem-sucedida, e o embaixador sequestrado testemunhou que foi tratado com dignidade. Isso desmonta a narrativa militar de que os revolucionários eram meros marginais. No entanto, o preço foi alto: muitos foram capturados, torturados ou desapareceram. Apesar disso, a pressão popular cresceu, e os militares só devolveram o poder aos civis quando o país já estava em crise, com dívidas astronômicas e corrupção generalizada.


    Hoje, há quem negue os males da ditadura. As classes mais altas, que não sofriam diretamente com a repressão, tendem a minimizar o período. Já a classe trabalhadora, historicamente explorada, muitas vezes não via diferença entre a ditadura e outros regimes. 


    Essa falta de unidade é retratada no filme: enquanto um taxista expressa orgulho pela ação dos sequestradores, um comerciante os denuncia por desconfiança. Essa divisão reflete um problema maior: a alienação política do brasileiro.


    O ditado "Futebol, religião e política não se discute" não era apenas um conselho para evitar conflitos; era uma ferramenta de controle. Ao afastar a população das discussões políticas, o regime garantiu que o povo permanecesse apático e vulnerável ao autoritarismo. Hoje, colhemos os frutos dessa alienação: uma população que odeia a política sem entendê-la, presa em uma polarização superficial.


    O filme também mostra como o regime soube usar a vitória na Copa de 70 para elevar o moral da população e desviar a atenção de suas ações. Atualmente, discutir política no Brasil é difícil, pois muitas pessoas repetem discursos prontos, sem desenvolver pensamento crítico.


    Por fim, o filme retrata a complexidade dos grupos revolucionários. A união entre o MR8 e a ALN mostra que, apesar de compartilharem a mesma luta, havia divergências internas. Enquanto alguns buscavam apenas denunciar o regime, outros visavam a derrubada completa do governo. Essa diversidade de pensamentos é crucial para entender a resistência à ditadura.


    Em suma, o filme é uma experiência histórica valiosa, bem produzida e fiel aos relatos da época. Apesar de alguns diálogos forçados, ele consegue transmitir a tensão e a diversidade de ideias que marcaram a resistência à ditadura. E, acima de tudo, nos lembra que a luta pela liberdade e pela justiça é sempre complexa, cheia de nuances e sacrifícios.


    A história da ditadura militar no Brasil é uma história contada principalmente pelos que resistiram. Os opressores, ao destruírem documentos e ocultarem provas, tentaram apagar não apenas os vestígios de seus crimes, mas também a própria possibilidade de uma narrativa alternativa. Essa prática não é exclusiva do Brasil — regimes autoritários em todo o mundo usaram táticas semelhantes para silenciar o passado e controlar o futuro. No entanto, a verdade tem uma maneira peculiar de ressurgir, mesmo que em fragmentos.


    Os poucos documentos que sobreviveram, escondidos nos porões de casas de militares ou de agentes do regime, são como janelas para um passado que muitos prefeririam manter fechado. Eles confirmam relatos de tortura, desaparecimentos forçados e execuções sumárias, mas também revelam a estrutura burocrática por trás da repressão. Esses papéis mostram que a violência não era apenas um excesso de indivíduos, mas uma política de Estado, meticulosamente planejada e executada.


    No entanto, mesmo com essas evidências, os "porões da ditadura" — tanto literais quanto metafóricos — permanecem em grande parte fechados. A Lei de Acesso à Informação, promulgada em 2011, foi um avanço importante, mas ainda há resistência em abrir completamente os arquivos da ditadura. Essa resistência não é apenas burocrática; é política. 

    

    Há um medo de que a exposição total da verdade possa desestabilizar narrativas consolidadas e questionar a impunidade de muitos que participaram do regime.


    Enquanto esses porões permanecerem fechados, a história da ditadura continuará sendo uma história de lacunas. E essas lacunas não são neutras — elas beneficiam aqueles que preferem esquecer ou distorcer o passado. 


    Para os familiares de desaparecidos políticos, para os sobreviventes da tortura e para a sociedade como um todo, a falta de acesso à verdade é uma forma de violência prolongada. É como se a ditadura ainda estivesse presente, negando o direito à memória e à justiça.


    Mas por que essa resistência em abrir os arquivos? Talvez porque a verdade seja incômoda. Ela expõe não apenas os crimes do passado, mas também as continuidades no presente. Muitas das estruturas de poder que sustentaram a ditadura ainda estão em vigor, embora de formas mais sutis. 


    A violência policial, a concentração de renda, a marginalização de grupos vulneráveis — tudo isso tem raízes que remontam ao período militar. Abrir os porões da ditadura significaria confrontar não apenas o que aconteceu, mas também o que ainda persiste.


    E aqui chegamos a um ponto crucial: a importância da memória. A memória não é apenas um registro do passado; é uma ferramenta para o presente e o futuro. Quando nos lembramos das vítimas da ditadura, das lutas pela democracia e da resistência contra a opressão, estamos afirmando que essas histórias importam. E mais do que isso, estamos dizendo que a justiça — ainda que tardia — é possível.


    No entanto, a memória também é um campo de disputa. Enquanto alguns lutam para preservar e divulgar a verdade, outros trabalham para distorcê-la ou apagá-la. É por isso que filmes, livros, documentários e outras formas de arte são tão importantes. Eles ajudam a manter viva a memória daqueles que resistiram e a desafiar as narrativas dominantes. 


    Este filme é um exemplo disso: ele não apenas conta uma história, mas também convida o espectador a refletir sobre o que foi silenciado.