A abertura nos apresenta imagens das décadas de 60 e 70, sugerindo uma vida aparentemente normal: pessoas se divertindo, festejando no carnaval, como se a alegria fosse a tônica da época. No entanto, a cena inicial desmonta essa ilusão. Uma gigantesca passeata exige o fim da ditadura, mas é violentamente reprimida pela polícia. Essa cena deixa claro que a liberdade era uma miragem. Em governos democráticos, as pessoas têm o direito de se manifestar, mesmo que seja contra o próprio governo. Na ditadura, esse direito era negado, e a violência era a resposta a qualquer dissidência.
Hoje, algumas vozes saudosistas exaltam a ditadura militar, afirmando que era uma época de maior segurança, respeito e menos corrupção.
Essas narrativas, porém, ignoram que a violência daquela época era menos visível, não menos real. As informações eram controladas, e apenas casos extremos chegavam aos jornais de alcance nacional. Hoje, com a internet, a violência é exposta em tempo real, em escala global. Além disso, havia a violência oculta nos porões da ditadura, onde torturavam não apenas os opositores declarados, mas qualquer um sob suspeita.
Quanto ao "respeito", trata-se de uma nostalgia geracional: toda geração tende a ver a seguinte como "degenerada".
E a corrupção? Arquivos revelam que ela existia, mas era encoberta pela falta de transparência.
O filme também contrasta a guerra interna no Brasil com os tempos áureos dos EUA, simbolizados pela vitória na corrida espacial com a chegada do homem à Lua. Esse contraste é crucial, pois documentos revelados após o fim da Guerra Fria mostram o envolvimento dos EUA no golpe de 64. Essa prática de patrocinar golpes em outras nações não era novidade — os EUA justificavam suas ações como uma luta contra o "comunismo", o inimigo criado para legitimar intervenções. Mesmo após a Guerra Fria, essa política de guerras indiretas e apoio a golpes persiste, independentemente do regime ou ideologia do país-alvo.
Os militares alegavam que seu objetivo era manter a ordem e promover o crescimento do país. Antes, eu duvidava que uma ditadura pudesse alcançar isso. Hoje, reconheço que é teoricamente possível, mas apenas se os líderes fossem dotados de um rigor moral excepcional. O problema é que o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Uma ditadura "benevolente" seria uma contradição nos termos.
O filme retrata a formação de um grupo de resistência que luta contra o regime capitalista em prol de uma versão comunista de governo. No entanto, é importante lembrar que a oposição à ditadura era diversa: havia desde comunistas até quem apenas desejava o fim do autoritarismo.
O filme foca em um grupo específico, cujo objetivo era denunciar as atrocidades do regime, especialmente após o Ato Institucional nº 5, que calou a imprensa e intensificou a repressão. A solução? Uma ação ousada: sequestrar o embaixador dos EUA, uma potência global cujo envolvimento no golpe já era suspeito. O sequestro não visava apenas a libertação de presos políticos, mas expor ao mundo a face brutal da ditadura.
A cena do assalto a um banco, por exemplo, não era apenas uma forma de financiar o grupo, mas também de transmitir suas razões à população. Apesar dos riscos, o grupo agia com um propósito maior, como fica claro no diálogo de Luiz Fernando Guimarães.
O filme também mostra a organização dos revolucionários, sua intelectualidade e as táticas usadas para escapar da repressão. Eram estudantes, trabalhadores, pessoas comuns que se sentiam oprimidas — não "bandidos", como o regime tentava retratá-los.
O sequestro do embaixador foi um marco. Apesar dos erros cometidos pelo grupo, a ação foi bem-sucedida, e o embaixador sequestrado testemunhou que foi tratado com dignidade. Isso desmonta a narrativa militar de que os revolucionários eram meros marginais. No entanto, o preço foi alto: muitos foram capturados, torturados ou desapareceram. Apesar disso, a pressão popular cresceu, e os militares só devolveram o poder aos civis quando o país já estava em crise, com dívidas astronômicas e corrupção generalizada.
Hoje, há quem negue os males da ditadura. As classes mais altas, que não sofriam diretamente com a repressão, tendem a minimizar o período. Já a classe trabalhadora, historicamente explorada, muitas vezes não via diferença entre a ditadura e outros regimes.
Essa falta de unidade é retratada no filme: enquanto um taxista expressa orgulho pela ação dos sequestradores, um comerciante os denuncia por desconfiança. Essa divisão reflete um problema maior: a alienação política do brasileiro.
O ditado "Futebol, religião e política não se discute" não era apenas um conselho para evitar conflitos; era uma ferramenta de controle. Ao afastar a população das discussões políticas, o regime garantiu que o povo permanecesse apático e vulnerável ao autoritarismo. Hoje, colhemos os frutos dessa alienação: uma população que odeia a política sem entendê-la, presa em uma polarização superficial.
O filme também mostra como o regime soube usar a vitória na Copa de 70 para elevar o moral da população e desviar a atenção de suas ações. Atualmente, discutir política no Brasil é difícil, pois muitas pessoas repetem discursos prontos, sem desenvolver pensamento crítico.
Por fim, o filme retrata a complexidade dos grupos revolucionários. A união entre o MR8 e a ALN mostra que, apesar de compartilharem a mesma luta, havia divergências internas. Enquanto alguns buscavam apenas denunciar o regime, outros visavam a derrubada completa do governo. Essa diversidade de pensamentos é crucial para entender a resistência à ditadura.
Em suma, o filme é uma experiência histórica valiosa, bem produzida e fiel aos relatos da época. Apesar de alguns diálogos forçados, ele consegue transmitir a tensão e a diversidade de ideias que marcaram a resistência à ditadura. E, acima de tudo, nos lembra que a luta pela liberdade e pela justiça é sempre complexa, cheia de nuances e sacrifícios.
A história da ditadura militar no Brasil é uma história contada principalmente pelos que resistiram. Os opressores, ao destruírem documentos e ocultarem provas, tentaram apagar não apenas os vestígios de seus crimes, mas também a própria possibilidade de uma narrativa alternativa. Essa prática não é exclusiva do Brasil — regimes autoritários em todo o mundo usaram táticas semelhantes para silenciar o passado e controlar o futuro. No entanto, a verdade tem uma maneira peculiar de ressurgir, mesmo que em fragmentos.
Os poucos documentos que sobreviveram, escondidos nos porões de casas de militares ou de agentes do regime, são como janelas para um passado que muitos prefeririam manter fechado. Eles confirmam relatos de tortura, desaparecimentos forçados e execuções sumárias, mas também revelam a estrutura burocrática por trás da repressão. Esses papéis mostram que a violência não era apenas um excesso de indivíduos, mas uma política de Estado, meticulosamente planejada e executada.
No entanto, mesmo com essas evidências, os "porões da ditadura" — tanto literais quanto metafóricos — permanecem em grande parte fechados. A Lei de Acesso à Informação, promulgada em 2011, foi um avanço importante, mas ainda há resistência em abrir completamente os arquivos da ditadura. Essa resistência não é apenas burocrática; é política.
Há um medo de que a exposição total da verdade possa desestabilizar narrativas consolidadas e questionar a impunidade de muitos que participaram do regime.
Enquanto esses porões permanecerem fechados, a história da ditadura continuará sendo uma história de lacunas. E essas lacunas não são neutras — elas beneficiam aqueles que preferem esquecer ou distorcer o passado.
Para os familiares de desaparecidos políticos, para os sobreviventes da tortura e para a sociedade como um todo, a falta de acesso à verdade é uma forma de violência prolongada. É como se a ditadura ainda estivesse presente, negando o direito à memória e à justiça.
Mas por que essa resistência em abrir os arquivos? Talvez porque a verdade seja incômoda. Ela expõe não apenas os crimes do passado, mas também as continuidades no presente. Muitas das estruturas de poder que sustentaram a ditadura ainda estão em vigor, embora de formas mais sutis.
A violência policial, a concentração de renda, a marginalização de grupos vulneráveis — tudo isso tem raízes que remontam ao período militar. Abrir os porões da ditadura significaria confrontar não apenas o que aconteceu, mas também o que ainda persiste.
E aqui chegamos a um ponto crucial: a importância da memória. A memória não é apenas um registro do passado; é uma ferramenta para o presente e o futuro. Quando nos lembramos das vítimas da ditadura, das lutas pela democracia e da resistência contra a opressão, estamos afirmando que essas histórias importam. E mais do que isso, estamos dizendo que a justiça — ainda que tardia — é possível.
No entanto, a memória também é um campo de disputa. Enquanto alguns lutam para preservar e divulgar a verdade, outros trabalham para distorcê-la ou apagá-la. É por isso que filmes, livros, documentários e outras formas de arte são tão importantes. Eles ajudam a manter viva a memória daqueles que resistiram e a desafiar as narrativas dominantes.
Este filme é um exemplo disso: ele não apenas conta uma história, mas também convida o espectador a refletir sobre o que foi silenciado.
