segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Vítimas do Dia (2025)

    Desde os primeiros minutos de Vítimas do Dia, senti-me claustrofóbico. Era como se eu estivesse assistindo ao filme de dentro de uma caixa fechada. A tensão cresce sem trégua e, quando parece que chegamos ao limite – que tudo o que resta é aguardar o final da guerra entre milicianos e traficantes –, o filme encontra novas formas de nos sufocar. O desespero não é apenas o dos que estão presos no mercado, mas também daqueles que vivem encarcerados dentro de suas próprias casas, como Daiane e sua irmã.


    O filme recorta com precisão a violência cotidiana que assombra parte da sociedade brasileira. Em uma metrópole, uma simples tarefa do dia a dia pode se transformar em uma aventura pelo trânsito da grande cidade e terminar em uma tragédia como uma guerra entre milicianos e traficantes. Nada é seguro, nada é previsível. E o mais perturbador é que essa sensação de risco não é uma paranoia, mas uma quase certeza. A qualquer momento, tudo pode mudar.

    A fotografia traduz essa dureza. Tudo no filme reforça a aspereza da realidade que retrata. Não se trata apenas da violência física – há também o peso das vidas individuais dos personagens, que já enfrentam batalhas pessoais antes mesmo de ficarem presas no mercado. Uma gravidez inesperada, uma aposentadoria compulsória, a hostilidade de um novo ambiente de trabalho – problemas que, isoladamente, já são difíceis, mas que, dentro do contexto do filme, ganham um peso ainda maior.

    E então, como se já não bastasse, tudo fica ainda pior. Um tiroteio os obriga a se trancarem dentro do mercado por horas. Horas de medo, tensão e incerteza. As atuações são intensas, cada olhar e gesto carregado de desespero. Mesmo fora do mercado, a sensação de perigo persiste. Na casa de Daiane e Elder, onde se espera um mínimo de refúgio, a inquietação só aumenta. A demora do marido, a falta de notícias, a falta de contato por telefone, a queda de energia – cada detalhe amplia o pânico.

    Apesar de o filme tratar de violência armada, senti que a cena da discussão sobre armas foi um ponto destoante. Minha posição pessoal é contrária ao armamento, e, embora o diálogo expresse exatamente o que penso, a forma como ele foi inserido soa forçada, quase didática demais. Não consigo imaginar um grupo de pessoas, em meio a um tiroteio, parando para debater o tema daquela maneira.

    Não é um bom filme para mim. Não por falta de qualidade – Vítimas do Dia é uma obra muito bem executada, com atuações marcantes e uma construção impecável de tensão –, mas porque me causa um desconforto profundo. Ele é tenso, angustiante, desesperador. Senti o desespero de Daiane como se fosse meu. E talvez esse seja o verdadeiro impacto do filme: ele não é um retrato distante de uma realidade alheia. Ele fala sobre um mundo que, embora pareça distante para alguns, pode estar a poucos quilômetros de distância. Poderia ser eu naquele lugar. Poderia ser alguém próximo a mim.

    Ainda assim, apesar de toda a brutalidade, o filme se encerra com um respiro – um vislumbre de esperança, de nascimento e renascimento.