terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

A Noite das Taras (1980)

    Com um título como A Noite das Taras, a expectativa inevitável é de um filme erótico ou pornográfico. Mas ele falha em ser qualquer um dos dois. Pouco explícito para ser classificado como pornô, direto demais para ser considerado erótico. Na verdade, trata-se de um filme mosaico, composto por três histórias que giram em torno de marinheiros seduzidos pelo canto da sereia – só que bem longe do mar.

    O ritmo é lento, o que não chega a ser uma surpresa para o cinema brasileiro. Alguns filmes conseguem justificar essa lentidão ao construir atmosferas envolventes – seja retratando a aridez do sertão ou explorando a beleza de um cenário cativante. Mas esse não é o caso aqui. As cenas são arrastadas sem que se extraiam delas qualquer imersão ou significado maior.

Primeira história: A Carta de Érico

    A primeira impressão é de atuações artificiais, teatrais demais para as telas. O cenário urbano já nos insere no caos de uma grande cidade dos anos 80, mas sem grande envolvimento narrativo.

    Cibele (Patrícia Scalvi) está trancada em seu apartamento, contemplando várias formas de suicídio: veneno, arma, navalha. Mas hesita. Quando parece finalmente decidida a usar a navalha – o método mais doloroso entre os que cogitou –, batidas na porta interrompem seu plano. Um mensageiro chega com uma carta. Podemos dizer que foi "salva por um bilau".

    O mensageiro é uma figura peculiar. Invade o espaço de Cibele com uma naturalidade absurda, movendo-se pelo apartamento sem pedir licença. Ele tem um jeito engraçado, embora seja descaradamente folgado. Cibele, por sua vez, não se interessa nem pela carta nem pelo portador. Segue para o quarto, ainda determinada a pôr fim à própria vida.

    A essa altura, uma pergunta paira no ar: quem é Érico, o remetente da mensagem?

    Esta história, em particular, até consegue construir uma boa dose de expectativa. A iminência do suicídio mantém a tensão, enquanto os diálogos, rememorados, entre o mensageiro e o enigmático Érico guiam a narrativa. Mas o que incomoda é a lentidão frustrante da protagonista: mesmo sentada ao lado do mensageiro, ainda hesita em abrir a carta. Mulher, abre logo essa correspondência!

    O próprio mensageiro, num lampejo de brilhantismo, sugere: "Por que não ler a carta e ver se ela esclarece algo?"
    Oh, great idea. E então, enfim, a surpresa. Preciso admitir que fui pego de leve desprevenido.

Segunda história: Peixe Fora D'água

    Simplesmente horrível. Atuação ruim, diálogos ainda piores. Até as cenas de sexo – que deveriam ser o carro-chefe do filme – são artificiais e desinteressantes. No fim, temos quase meia hora de tempo desperdiçado.

Terceira história: Julio e o Paraíso

    Cenário noturno, cidade agitada. Julio, generoso, leva cinco mulheres esfomeadas ao Eduardo’s Rodízio. Os diálogos são um pouco menos sofríveis, mas ainda distantes de qualquer envolvimento real. Pelo menos, essa última história entrega um erotismo mais assumido – ainda que sem grande beleza ou impacto.

Conclusão

    Filme difícil de assistir. Uma mistura indigesta de Ilha da Fantasia, Além da Imaginação e Nelson Rodrigues – só que de terceira categoria. Nenhuma das histórias se sustenta. Como narrativa erótica, falha. Como pornô, também não diz a que veio. No fim das contas, A Noite das Taras entrega menos do que promete e não tem nada que realmente valha a pena.